sexta-feira, 14 de setembro de 2012

O social pelo social

Ontem, chegaram juntos à sala. Permaneceram apenas o tempo suficiente para descobrir qual era o assunto do dia. E tornaram a sair. Juntos. Livres. Juntos! Hoje, foi apenas ela. Sentou à minha frente. Viva, maravilhosa. Colega, queria ser você. Mas estou feliz sentada aqui atrás, mirando seus longos cabelos. Em dado momento, discutíamos a legalização da maconha. Parecia meio deslocado em uma aula de sociologia clássica. Ao meu ouvido, ela confessa, sorridente, ter se lembrado dele. Não acaba. Não acaba, assim como eu não acabo nunca mesmo depois de alguém se despedir. A pessoa vai, e eu continuo. E lá também em seu caminho ela segue, continuando. Nada acaba. Ficam impressões. As coisas passíveis de efeito, afeto, reverberação. Por vezes, duas existências esbarram-se, tocam-se, pegam-se. Será? Não conheço, mas quero conhecer. Um mundo de coisas querendo ser vistas. Voltei a ler com vontade. Não quero jamais morrer de novo. Só na hora certa. Escuto com interesse genuíno. Permaneça! Escrevo agora sem dicionário de sinônimos e sou o instante-já. Percebe que não atropelo as palavras, porque não tenho pressa? Não há mais nada que eu possa perder. Porque vejo que as coisas continuam, aqui e lá, para mim e para todos. Continua, e não mata. O toque recebido não se esvai. Seu efeito permanece, e sou grata. Estou fragmentada em tudo que me dão, unidade absurda de pessoa em movimento. Movo-me em direção a algo, certa de encontrá-lo, o que quer que seja. Sem fulminação, não atropelo a existência de ninguém. Deixe as coisas virem e me atingirem em cheio. Ontem, outra aula apaixonante. Antropologia pós-moderna. Meu professor favorito confessa ter conhecido o sujeito criador de um certo desenho animado paródia, que um dia tanto me fizeras assistir. Até ri. O meu pedaço diário das tuas superficialidades. Porque as profundidades, quando me resolvem aparecer, prendem o riso. Aí fiquei morrendo de vontade de te contar. Porque eu não dou a mínima, mas me comovi com a tua lembrança. Fútil e comum e totalmente sincero. De repente, fiquei feliz, porque lembrei de ti sem sofrer. Sei que não te posso contar nada. E os sons de baixo vão se tornando só meus. Qualquer dia desses, volto a ouvir aquela banda, aquela música restrita. Ajuda ler, eu leio muito e sei que as palavras não te pertencem. Tu corres delas feito fugitivo, criminoso que não escapas de ser – eu li nos teus olhos quando te vi naquela noite dura, olhos completamente isentos de inocência. Um dia tentara ler-te um poema. "Análise"  sei de cor. Não prestaste atenção. Hoje, leio-o só. Choro por ter uma coisa só minha. Voltei a atenção à aula. E fim. Mas não, porque não acaba. Isso há de repetir-se, há de acontecer, sempre e cada vez menos. E eu hei de sorrir. Saudade até que é bom, melhor que caminhar vazio? Mesmo que eu venha a tropeçar de novo, preciso capturar o isto, preservar algum fruto desta sensação libertária, este meu instante-já que eu vivo infinito: eu sou eu? Eu hei de ser.

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