Longe, lá de longe, que canto é este? É som de voz nenhuma. Parece vento, parece onda. Copiosamente sofro. Copiosamente, vou digerindo o resultado de cada ação. Copiosamente padeço no meu paraíso, assim tão irritantemente humano. Comum e singular. A única constância é o estado de variação. Há que haver uma restauração, ou renovação infalível. Infalível: se falhar, reergue-se. Sem escusas. Sem pecados. Reergo-me, vem-me um agudo ao ponto entre as sobrancelhas. E ecoa. Sou propagação, meu bem. O toque vibra. Vês? Não vês, mas podes sabê-lo. Estou querendo muito te contar. Contar que não ouço voz alguma? É o ébrio tomando conta de mim. Flutuo no escuro. Como me ensinaste. Como é que eu vou contar que aprendo? És misterioso. Tens um sorriso escondido atrás do ângulo que não me calha transpassar. Tens qualquer urgência de partida e ausência. Não persigo. Vês que me excedo? Só de pensar-te. Desafio qualquer senso de fronteira. Pois que perdi o tino da circunspecção. Estou solta. Ouvindo instrumental. Impura. Colhida e largada. Flor condenada, sabes? Mas flor. E investigante. Farei da tua distância um dom. Farei. E, tudo que de bom vier do toque deixado, eu cultivarei. Vês? Sobejo no ambiente inóspito. Não sou flor de véspera. Minha luz é póstuma. Devo ser novembro. Copiosamente emudeço, para ouvir os sons da natureza. A vida fala a mim. Sou muda transviada. As raízes todas se desatam oblíquas. Sou vida, não faço cálculos, não me atenho a ontologias (sobre)humanas. O humano em mim é só som e ar e água. Natural. Sou qualquer coisa, matéria inesgotável. Existo em paz, em conjunção com os tempos. O instante. Amo-te quando apareceste, amo-te quando inexistes, amo-te quando me esquecer de ti. Ama-me quando me fiz notável, ama-me quando me faço ignorada, ama-me quando sequer lembrares de um dia haver-me. Amemos, sem tempo verbal. Sem lógica de sentido. Sem saber flexionar com o corpo o verbo amar. Sem curvatura ali onde o tempo cede, e o som se ouve, lá de longe. És distante. Estou querendo muito te ver de perto. Não há sentido; é sussurro de vento. Não pesa, nem me carrega; não mata. Insinua. Para fazer-me a sombra um tempo, e não voltar, se o caso for. Não te assustes. Foi qualquer detalhe de vida que me fez planta aérea, qualquer desejo secreto de ser epífita. Qualquer luz tua na minha. Agradeço a cortesia, e já me ponho em retirada. Bem devagar, para ver se alguém ainda me alcança. Mas sem espreitar. Se o caso for.
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