sábado, 22 de setembro de 2012

Fé revisitada

Para Victoria, Bibiana, Lia e Carlos

Porque há um sentido maior na receptividade. Colhemos o que nos é dado, buscamos no dado o sentido de vivê-lo. Porque o mundo é possibilidade: densa teia suspensa, céu aberto, chuva torrencial, liberdade. Como se anular uma possibilidade inexplorada? Como se contentar com um só caminho no mundo dos caminhos possíveis? Como aceitar uma certeza insustentável? Estou certa de não saber. E tu, que sabes, sabes-lo porque o sentes: Deus está, porque não poderia crer num mundo totalmente ou unicamente humano. Um mundo concebido humanamente, como criação contingente numa teoria de uma simplória "sociedade" de homens. Uma, em infinitas. O humano, na infinitude ontológica. E que garantia teríamos? Deus está, mas não como uma força consciente. Não fere. Não calcula os nossos caminhos. Porém, os caminhos lá estão. Traçados. Por qualquer coisa maior que acaso. Não me creio superior: como haveria de saber inteiro de antemão o "meu" caminho, ou mesmo "o" caminho? Não. Há significado em buscar um íntimo nos outros, esbarrando entre si os caminhos. Cuidado: o caminho não deve ser inteiramente compartilhado. E os passos, só tu sabes como os dar. Que luz-guia espero ver no infinito do meu caminho? Deus me tem uma surpresa aguardada. Há qualquer ato de fé em consumir a noite e sorver a aurora. Bom dia: eu sou luz. Ninguém me vê no céu. E eu os vejo a todos. Vivendo a perspectiva do inexplorado. Vivendo a não-expectativa do momento agora a ser sorvido todo. É a protoexperiência de cada segundo pelo seguinte. É uma protovida de viver sem morte. É o protoamanhecer que se vive a cada noite. Eu amanhecerei. O céu, ninguém me dá, mas me fizeram ver. O poder da rejeição está em mim. As rejeições mais sutis são as mais horríveis. Céu, dê-me qualquer resposta, a duração da companhia. Dê-me um sorriso de ser lembrada. Dê-me a força de registrar esta lembrança de uma noite, de minhas noites, de sensações nunca vividas relembradas e compreensões destiladas e a revelação embriagada. Alguma chave gira em meu pensamento, conferindo nova lente ao meu mundo, quase um novo paradigma, não de raciocínio, não de racionalização, não de sentimentalização, não de emocionalidade, não de intuição, mas de vida, de vida, de vida. Viver. Não se tolha a vida, não se faça um corte brutal, não se limite, não se acate a conjugação de uma falha. Não se tema o deixar as coisas por viver, deixar as coisas ainda por vividas, deixar as coisas, deixar as coisas que não se podem levar, deixar o que não se pode desatar, não se tema o atar-se frouxamente aos laços todos. A vida é frouxa, a vida é branda e amena. Como se atar a tudo com tanta obstinação? O mundo é fluido. Balança e oscila e faz dança de ondas com todos nós. Tudo é igual e diferente. Ninguém me supera, ninguém me atinge, ninguém me basta, nem me anula. Ninguém me serve. Tudo se complementa sem preceptividade. Não há rigor, nem palavra de ordem. Estamos soltos. E é preciso coragem. O mundo requer pequenos grandes atos. Como "amanhecer". Ou "viver".

Nenhum comentário:

Postar um comentário