quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Sublimar

(latim sublimo, -are) 
v. tr.
1. Exaltar; tornar sublime; engrandecer.
2. Volatilizar quimicamente.
3. Purificar, expurgar de tudo o que é estranho ou impuro.
v. pron.
4. Tornar-se sublime.

eu recuperei o hábito de caminhar. Também porque a exigência de manutenção de toda esta tecnologia me oprime e enclausura. A paisagem é inútil. Não me agrada, mas também não me perturba. Não é por causa do caminho, nem do destino. É justamente a ausência de caminho e de destino. Ponho os pés um à frente do outro, percorro um espaço, avanço, como que para me dar a oportunidade de contemplar o contraste do meu espírito, que já não chega a lugar algum, e as idéias que também parecem não vir a nada, e sim orbitar em torno de um só ponto convergente, inútil. O tempo é contra mim. Então desafio a temporalidade. Se eu andar assim, talvez ultrapasse até os limites dos meus pensamentos, e atinja algum sentido oculto por trás de minhas decisões passadas. Talvez eu sublime minha densidade de pessoa poluída e me reintegre no vento, sem consciência, só leveza, só pureza, percorrente de tempos e lugares que me são inacessíveis. Porque não me posso livrar deste ambiente, porque não me posso livrar das idéias, quisera então me livrar deste corpo, quisera livrar-me de viver meu tempo, curtíssimo e intolerável. Quereria habitar outra materialidade. Caminhando, as idéias como que ficam desemboladas; vejo-as uma ao lado da outra, vêm-me uma depois da outra, em fluxo rápido, e se espalham no ar que me atravessa, levando consigo um rastro da minha falta de solidez. Estou totalmente transportável, assumo a forma do recipiente, mudo de estado, comprimo-me, agito-me, sou uma composição precisa e muda, um cálculo matemático exato sem finalidade. Perfeitamente inútil. Mas o ambiente permanece todo igual, como se o tempo não tivesse agido sobre todas as coisas. O furacão parece ter passado por dentro de mim sem atingir mais nada, deixando tudo intacto à minha volta. Talvez eu tenha ido com ele, e já não pertença a mim mesma? Não sei como, mas as coisas todas em mim parecem ter saído do lugar, como se eu não reconhecesse a disposição dos meus dias. Mas eu sei que a única e real transformação foi em meu interior. Sou uma estranha no meu espaço. Depois do fim, o fim é o que dura. Mas é o fim que ressignifica todas as coisas. Quase morrer não altera nada, morrer altera todas as coisas. Mas não morrer, e sim seguir vivendo, com a coragem que eu não tenho? A história não acaba; eu tive que cumprimentar a morte e continuar aqui para assistir ao destrinchar dos enredos alheios, enquanto o meu se espalha ao vento assim feito pó, cinzas de guerra. Sigo as mesmas rotas, escondo-me nas mesmas roupas e nas mesmas músicas, luto com os mesmos livros. E eu já outra. Mudou a perspectiva? O foco. Ou a ausência de foco. E eu quase sentiria ódio por ele, por ter me roubado toda a determinação. Se eu pudesse sentir ódio. Que é ainda mais impossível que não sentir amor. Caminho, já não tão leve, já não tão plácida, cheia de argumentos e defesas, cheia de acusações, cheia de pesares, e cheia também da prontidão mais absoluta para abrir mão de tudo isso, tudo, e ser apenas uma companhia fácil e subserviente. Tão fácil! Caminho, e quero é a suspensão. Eu quero sublimar essa dureza, esse concreto, esse calor derrotador, essa tensão de pensamentos reprimidos, esse olhar que só abaixa, só desvia, só se fecha em sons e dores e um escuro de alma que não se liberta nunca. Pois já não poderia me dar o luxo de ser realista, ou cética. A verdade dos fatos me matará, extinguirá, e eu imploro pela esperança que tiraram de mim. Eu quero sonhar, eu quero uma distância, uma doce ignorância, uma distração que me prenda. Quero alguém que me leve, leve-me consigo, ocupe-me de outras idéias, ocupe-me toda, deixe-me morar um pouco em algum olhar que não seja o meu próprio encarando para dentro de mim mesma, quero sonhar, quero ser tirada de mim, quero romper todas estas barreiras e gastar todo o corpo e a vida que me restam em algo novo, quero sonhar, quero acreditar na promessa do amanhã, porque de repente é madrugada insuportável e eu quero acreditar, ao menos para adormecer, por alguns dulcíssimos minutos, que alguém virá sacudir-me e roubar-me deste ciclo, algo incrível me tomará nos braços, deixar-me-á sem fôlego para gritar por ele, ofertar-me-á a trégua, tornar-me-á livre vivente, abrir-me-á para o amor, para a capacidade de confiar novamente, e eu terei algum motivo para fechar os olhos em alegria. Eu acredito em qualquer verdade, porque para mim não há uma só verdade. A verdade de qualquer um é a verdade. Para ouvir, mas não para aplicar. Não sei ouvir conselhos, porque são verdades alheias. Consola-me, mas não muda nada. Certamente permanece intacta a minha verdade. Também porque nada é único. Contudo, quando abaixo a guarda, solto meu verbo reprimido, e vejo já a testa que franze, espanto-me com os outros, e recolho-me no isolamento emocional. Estou separada de tudo. Imagine a minha cabeça, que ele habita arrastando-se, e escalando as paredes do meu crânio, fazendo a comunhão de minhas culpas e ofensas inobliteráveis, música infinda e ensurdecedora contaminando todos os meus pensamentos. Quero meus cabelos, quero meus cabelos, quero ser outra, apenas, outra, que não seja a pessoa que eu sempre fora, quero longos cabelos e não quero a miopia e não quero pernas fortes e quero peitos, e quero agulhas, agulhas, agulhas, agulhas na pele, nem mesmo suporto ser inteligente, soa-me desconexo; sinto falta da estabilidade da sobriedade, mas pareço fazer questão de ser o avesso dela só para ser avessa a quem eu fora, e se eu fosse capaz até comeria carnes, comeria bem carnes para não ser eu, e abandonaria toda esta música, talvez assim eu finalmente entendesse o que fazer da minha vida, o quanto eu deixei de existir como pessoa autônoma. E pararia de escrever. E pararia de escrever. E pararia de escrever. E só voltaria a escrever quando pudesse enfim viver um sorriso natural. Quero sonhar, quero visualizar em ricos detalhes o que eu teria sido e não fui, quero tecer meus enredos românticos, enrolar-me neles, quente e acolhida, dormir um sono sem pesadelos de abandono e escrutínio e ressentimento. Quero brisa, luz nublada, frio colorido, metrô, prédios seculares, umidade, respostas compadecidas, bondade, convites aceitos, promessas mantidas, mãos que me envolvam o rosto, carinho lúcido, noites que acabem, olhos que me invadam e preencham de idéias que não me confrontem, só me levem para longe das minhas memórias, caminhar até que o corpo se livre de toda esta carga, carga, carga: eu quero sonhar que algum dia não carregarei todo este peso.

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