Tu. Tu mesmo. Não leias estas
palavras. Porque é um sonho meu, e não desejo impor minha verdade às mentiras
de ninguém. Porque é medo ainda, medo ainda do que eu possa querer, medo ainda
do que eu possa perder. Não quero fazer confissões. Já não tenho desabafos.
Quero o prazer de ouvir. Vem, despeja em mim todo o teu ínterim, todo o teu
âmago. Quero destilar um tempo meu em outro alguém. Pode ser em ti. Não estou
plena de outro, nem plena de mim. Será que estou à espera? Mas não à tua
espera. Estás também à espera de outra coisa. Não sabemos bem o que queremos.
Falas de paz, e eu me sinto arder um pouquinho ao teu lado. Quisera poder
dar-te alguma. Falas de ir embora, e eu me sinto em fogo brando. Não tenho
expectativas. Todo o horizonte está límpido, calmo, restabelecido, apaziguado,
disponível, para nós ou para quem quer que seja. Para ti. Eu torço por ti.
Sinto-me calar, para recepcionar as tuas palavras. Sim, minhas palavras saem tortas;
meus sorrisos, trêmulos; meus olhares, insustentáveis. Medrosa. Tenho que não
falar, não agir, não olhar, para me proteger da minha honestidade. Caso contrário,
entregar-me-ei. Poderei querer e perder. Embora não saiba bem o que é que
tenho. Então fico aqui, aconchegada em meu universo íntimo de complacência
silenciosa. Sim, devo mudar eventualmente. Espero os universos colidirem em
cada palavra, em cada olhar. Uma coragem momentânea me conduz direto para
dentro dos teus olhos e das tuas palavras, um segredo inabitado, assim fugaz,
assim visceral, assim eterno, como se tudo ficasse em suspenso por um milésimo
de segundo, e tudo se sustentasse estático para dar-me uma deixa, um convite ao
risco, a jogada precisa em que apostar. Mas será que quero querer? E pronto, vai-se
o momento. O sonho é sonho. Eu posso ver-te: mas não posso alcançar-te. Eu
misturo todas as coisas. O corpo com as palavras. E a falta de distinção só me
atiça mais a chama. A quem tento enganar? Estou flertando com um sonho. Falas
de viver uma aventura, de ser surpreendido, e eu me sinto até tentada a me
desconstruir, deixar cair todos estes muros à minha volta. Falas de buscar não
viver pelas reações e pelos juízos dos outros, e eu sou a explosão reflexa. O
que é que te fizeram? Vem, despeja aqui o jeito que quiseres ser, o desafio que
quiseres impor e aceitar, a palavra bruta e o olhar mais impenetrável. Faz uma
loucura. Olha aqui, porque não sei ainda trazer o teu olhar. Mas bem saberei recebê-lo.
Vem, sê tu mesmo, despeja em mim. Abaixa também os muros, e verás que sou bem
mais do que pareço. Um incêndio sutil, do mais desprendido, ainda que
apaixonado. Eu, língua atada. Esfolada viva? Por um olhar, por uma palavra tua.
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