Cada vez mais eu tenho uma
certeza inconsolável de que eu venha a carregar eternamente a marca dos meus
erros. Como se tudo que eu tocasse virasse pedra, a pedra que me deixaram no
lugar de um coração. E não deverá ser tão mau, porque aprenderei a não chorar.
Quem sabe um dia eu acorde para descobrir que já não me importo. Que vá o amor,
que vá a tristeza, que vá até a saudade, mas que fique aqui o meu erro, que
fique aqui todo o arrependimento. Que fique, que fique, que fique. Que dure a
auto-piedade. Nada mais é prova do que existiu, e carregar a marca do que não
existiu me deixa agora sem identidade, sem realidade. Não sei outro jeito de
ver os fatos. Para mim, um confronto não resolvido é uma luta vencida por um
dos lados. Consigo conceber nós que se desfaçam, sem deixar pontas soltas por
aí, mas não é este o caso. Se um vence, outro é vencido. Ser a outra está me
consumindo até as pontas dos dedos. Que paz é essa, que não permite diálogo? E
o diálogo que eu precisava ter, e nunca pude, fui levada a impô-lo a quem quer
que me desse a palavra. A palavra maldita, que de tão não-ouvida já não se quer
proferir. Porque há quem ouça, mas quem é que entende? E quem é que resolve,
senão o vencedor? Na falta dele, só depende de mim? E que ilusão é esta? É como
ser a via única de um segredo. Parece até doença mental. Não consigo explicar
meu nó nem a mim mesma. Para mim, um conflito irresolúvel é aquele em que um
está certo, e outro errado. Estar errada e seguir errando me consome já a
sanidade. Porque é o outro lado que tem a razão, e a tem de forma absoluta, sem
qualquer esmola ao perdedor. Porque eu fiz tudo, tudo, tudo o que podia, e até
o que não podia, em nome da redenção. Negada, sem cerimônia. Na falta de outro,
fui obrigada a olhar para mim. E não há glória. Preciso gostar de mim. Não
precisa haver louvor, sabe. Não ainda. Não precisa haver orgulho. Todos os meus
pensamentos foram reduzidos a pó. Que eu gosto de jogar ao vento para ver como
é fácil me desfazer toda. Para ver como eu não existo. Eu não estou aqui. Isso
não está acontecendo. Estou cansada de saber de tudo. Preciso agir. Preciso
encontrar alguma forma de me perdoar.
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