Não se preocupe, estarei nos
bastidores. Saberei exatamente por quais ruas andar e ainda apreciarei as gotas de chuva que castigarem meus cabelos. Sinto-me a nuvem escura no céu azul que aborrece a todos pelo seu
contraste. E contraste será a minha palavra. Sinto-me um personagem meio gótico,
meio trágico, de uma trama toda colorida. Sinto-me uma calmaria retumbante de
silêncio em meio ao rebuliço jovial e leviano da multidão. Sou uma testa
franzida, um par de olhos atrás de um par de lentes, olhos sérios e
condenadores, um desafio ou um convite à zombaria, um alvo fácil, um pé
batendo, um baixar de olhos em timidez, um virar de olhos em discordância, em
discrepância, como se fizesse questão de não me conformar, mas também não
tivesse a segurança para discutir. Sou um par de olhos esbugalhados,
horrorizados, afetados, encantados, amorosos-mas-inalcançáveis. Quem é que ousa
olhar para estes olhos? Quem, em meio a esses outros pares de olhos tão
descomplicados, tão ignorantes? Eu tenho o olhar de quem sabe. Só não me
pergunte a (des)graça de saber. Eu tenho o olhar de quem pausa para absorver,
contemplar; encarar a escuridão e esperá-la encarar de volta. E como quero que
encare. E seria como contemplar um reflexo. Eu tenho o olhar de quem não tem
medo de sentir todas as coisas. Pelo contrário: eu sigo buscando sentir bem
cada e toda coisa. Eu entrego bem no olhar tudo o que for sentido. Entrego
fácil tudo aquilo que é muito difícil de ter e receber. Tanto sentimento no
olhar assusta. Quem é que quer o fardo dos sentidos todos? Quem é que quer o
fardo de um olhar tão honesto? Quem, em meio a esses outros pares de olhos tão
dissimulados? Eu não tenho pose. Eu não tenho frases sagazes. Eu só tenho a
leveza do meu desprendimento concedido precisamente pela falta de olhares
cobiçosos repousando sobre mim. Ah, por que quereria esse peso? Tenho a leveza
de ser discreta, porque sou só minha e ninguém me vê aqui no escuro. Tão
discreta, tão preto sobre preto contra preto no preto, tão sutil, tão
olhares-no-silêncio, tão respostas-sem-enfeite, tão corajosa na minha timidez
escandalosa, tão simples em minha complicação, tão benevolente, tão inocente em
minha retidão, tão completamente íntegra em meu isolamento, e ainda tão
suscetível em minha genuinidade, que tento compensar sem muito esforço com
minha seriedade defensiva. Não se preocupe, estarei sozinha. Sou incognoscível.
Não perderei nada, porque paro bem para ver tudo, porque paro bem para pensar
tudo, porque mantenho bem a distância de que os iluminados abrem mão para
ganhar aquilo que pode ser perdido, então posso ter o tudo eterno e imperdível
que é o nada, o meu nada no escuro, que é talvez uma promessa de tudo que eu
sei que não se concretizará, mas serve de qualquer apaziguamento na terra onde
as coisas não acontecem, só se pensam e se sabem e se observam. Saberei mais,
porque quem é sozinho se ergue. Porque nada dura, e já me basta o exercício
diário de me ser para mim mesma. Por que precisaria de mais exigências além das
próprias? Quem é que suporta olhos tão conscientes, tão sóbrios? Porque a minha
sobriedade é a maior das coragens, na terra dos inebriados. Quem é que suporta
a total falta de pretensão do meu contraste, na terra dos pretensiosos? Separo-me
na terra, para reproduzir a segregação de alma. Se cultivo a solidão, mas
permaneço sem ego, o que me resta? O meu mundo todo hermético-infinito, o meu
escuro natural. Um par de olhos que, de tanto ver o que não podiam ter,
não acreditam no que querem enxergar. Um par de olhos que, de tanto recusar
serem fechados, castigam-se pela falta do que ver. Toda a paisagem é inútil. A
vida toda que se movimenta fora de mim é vibrante demais, ruidosa demais, desinteressante
demais, excessivamente isenta de minha natureza. Não ver me sufoca; ver me
ameaça. O que me resta: viver o contraste.
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