quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Contraste

Não se preocupe, estarei nos bastidores. Saberei exatamente por quais ruas andar e ainda apreciarei as gotas de chuva que castigarem meus cabelos. Sinto-me a nuvem escura no céu azul que aborrece a todos pelo seu contraste. E contraste será a minha palavra. Sinto-me um personagem meio gótico, meio trágico, de uma trama toda colorida. Sinto-me uma calmaria retumbante de silêncio em meio ao rebuliço jovial e leviano da multidão. Sou uma testa franzida, um par de olhos atrás de um par de lentes, olhos sérios e condenadores, um desafio ou um convite à zombaria, um alvo fácil, um pé batendo, um baixar de olhos em timidez, um virar de olhos em discordância, em discrepância, como se fizesse questão de não me conformar, mas também não tivesse a segurança para discutir. Sou um par de olhos esbugalhados, horrorizados, afetados, encantados, amorosos-mas-inalcançáveis. Quem é que ousa olhar para estes olhos? Quem, em meio a esses outros pares de olhos tão descomplicados, tão ignorantes? Eu tenho o olhar de quem sabe. Só não me pergunte a (des)graça de saber. Eu tenho o olhar de quem pausa para absorver, contemplar; encarar a escuridão e esperá-la encarar de volta. E como quero que encare. E seria como contemplar um reflexo. Eu tenho o olhar de quem não tem medo de sentir todas as coisas. Pelo contrário: eu sigo buscando sentir bem cada e toda coisa. Eu entrego bem no olhar tudo o que for sentido. Entrego fácil tudo aquilo que é muito difícil de ter e receber. Tanto sentimento no olhar assusta. Quem é que quer o fardo dos sentidos todos? Quem é que quer o fardo de um olhar tão honesto? Quem, em meio a esses outros pares de olhos tão dissimulados? Eu não tenho pose. Eu não tenho frases sagazes. Eu só tenho a leveza do meu desprendimento concedido precisamente pela falta de olhares cobiçosos repousando sobre mim. Ah, por que quereria esse peso? Tenho a leveza de ser discreta, porque sou só minha e ninguém me vê aqui no escuro. Tão discreta, tão preto sobre preto contra preto no preto, tão sutil, tão olhares-no-silêncio, tão respostas-sem-enfeite, tão corajosa na minha timidez escandalosa, tão simples em minha complicação, tão benevolente, tão inocente em minha retidão, tão completamente íntegra em meu isolamento, e ainda tão suscetível em minha genuinidade, que tento compensar sem muito esforço com minha seriedade defensiva. Não se preocupe, estarei sozinha. Sou incognoscível. Não perderei nada, porque paro bem para ver tudo, porque paro bem para pensar tudo, porque mantenho bem a distância de que os iluminados abrem mão para ganhar aquilo que pode ser perdido, então posso ter o tudo eterno e imperdível que é o nada, o meu nada no escuro, que é talvez uma promessa de tudo que eu sei que não se concretizará, mas serve de qualquer apaziguamento na terra onde as coisas não acontecem, só se pensam e se sabem e se observam. Saberei mais, porque quem é sozinho se ergue. Porque nada dura, e já me basta o exercício diário de me ser para mim mesma. Por que precisaria de mais exigências além das próprias? Quem é que suporta olhos tão conscientes, tão sóbrios? Porque a minha sobriedade é a maior das coragens, na terra dos inebriados. Quem é que suporta a total falta de pretensão do meu contraste, na terra dos pretensiosos? Separo-me na terra, para reproduzir a segregação de alma. Se cultivo a solidão, mas permaneço sem ego, o que me resta? O meu mundo todo hermético-infinito, o meu escuro natural. Um par de olhos que, de tanto ver o que não podiam ter, não acreditam no que querem enxergar. Um par de olhos que, de tanto recusar serem fechados, castigam-se pela falta do que ver. Toda a paisagem é inútil. A vida toda que se movimenta fora de mim é vibrante demais, ruidosa demais, desinteressante demais, excessivamente isenta de minha natureza. Não ver me sufoca; ver me ameaça. O que me resta: viver o contraste.

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