Clarice, preciso de ajuda. Estou
com uma claustrofobia profunda do mundo lá fora. Não quero ser vista, estou com
pavor de responder uma pergunta, não confio mais em ninguém, escuto como se
falassem num outro nível, distante e indiferente. Parece que as palavras
resolveram me pregar uma peça, já que dependo tanto delas para sobreviver. Meu
único caminho rumo a qualquer clareza, que é sentir explicando, me é agora uma
trilha sombria e intrincada que eu atravesso aos tropeços, à procura vã de um
atalho que me salve. E nem adiantaria eu dar mão à escuridão. Quisera intuir a
direção a ser tomada, simplesmente, sem analisar, ou que ela me aparecesse como
em um milagre. Mas nunca foi assim, simples, para mim. Descaminhei-me
completamente. O tempo é uma companhia morosa e derrotada. Sou só presença,
corpo em movimento, rosto contraído, unhas roídas. Estou vazia. Não me ouço nas
palavras que digo, não me sei manifestar quando incorro em algum diálogo. Sou
toda atos histérico-libertadores. Café, cigarro, álcool? Estou dispersa. Estou
com pânico da mudança, e pânico da estagnação. Estou ineditamente sem palavras,
é o incomunicável do coração de uma mulher, estou maculada, não vejo o
princípio nem o fim de meus pensamentos, caí no meio deste trecho como quem
acorda assustada de um sonho sem poder recordá-lo com exatidão. Esbarro num
detalhe inominável e me vejo atada ainda às indagações mais infrutíferas, e
logo refugiada em mais um estado de embriaguez, muda, silenciada de dentro para
fora.
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