quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Desinterferência

Porque ninguém sabe o que acontece quando se volta para casa, e tudo que se tem são os pensamentos. Um dia é suficiente, mas uma série de dias que se estendem pela alma, todos iguais, e aí sim, vê-se o advento de um novo vício. Que é um dia nessa vida que parece suspensão de tempo, monopólio sentimental das classificações ordinais? Que é uma data? Que é celebrar que eu tenha continuado a viver? E que me importa que tenha sido o meu dia, e igual a todos os dias que eu sou, os dias que ele escolhe ignorar? Porque é uma data, e eu sou simplória, eu sou até comum, comum, comum, e foi a primeira vez, desde que o conheci, que vi passar esta data sem que ele não me desse nada, nenhuma verdade ou mentira velada, nada. Nada, nem o perdão legítimo pelo qual me vi definhar e quase abrir mão de ver aniversários. Sim, seria mesmo curioso se ele celebrasse a minha vida, e não é que eu esperasse receber qualquer coisa, mas justo o contrário: quisera não estar sempre certa. Como eu gostaria de ser provada errada, de ver pelo menos uma vez a história tomar um rumo desconhecido, de ser surpreendida. Enquanto tragava, pensei na gravidade dos meus julgamentos, na simplicidade carregada dos atos mais vulgares, na data dele que é próxima, na ironia dos acontecimentos, na família que deixei de ter – "a gente só valoriza o que tem quando perde" –, no sonho pacato que me deixou para trás, nos olhares fulminantes que me bombardeariam, ah! se eu ousasse colocar os pensamentos em palavras, ah se eu fosse eu, porque também não estou sendo, seja o que for – só sei que não estou sendo. Por enquanto, é algum intervalo, sim, o mais doloroso até aqui, e há de durar ainda, mas os pensamentos já quase não se tornam palavras, ficam à beira do abismo e logo são intimidados pela promessa da dor consequente, e logo os sentimentos nem se tornarão pensamentos – "a emocionalidade estupidifica". E eu hei de respeitar sua certeza – sua vontade, majestade. De tanto respeitá-la, hei de esquecer que tivera a minha. A única clareza é ele não querer nada de mim. Foi só mais um dia para me lembrar, como se eu pudesse esquecer! Solto o ar, e ainda estou viva.

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