segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Materialidade

Ninguém normal e feliz precisa de tantas coisas, de tanta materialidade. Volto a este quarto, meu lar de tantas histórias doídas, incrustado de toda a materialidade de minha vida, e sinto um desolamento ainda superior ao de antes de deixá-lo. Minha única possessão é também minha ruína, meu ambiente inóspito, ainda mais aflitivo que minha mente. Porque estive longe, encarcerada apenas pelos meus pensamentos. Minhas pernas frenéticas me conduzindo aos encantos mais inéditos ou esquecidos, pernas livres, os olhos fazendo reconhecimento de terreno, os sonhos construindo milhares de enredos possíveis (e improváveis) no meu coração de insatisfeita, sempre insatisfeita, porém disposta. Nem ao meu quarto pertenço. Penso nele ainda, e teço decepções inúmeras, concluindo ter sido ele o mais próximo de todas as minhas materialidades. Ele foi profundo conhecedor do meu espaço e dos meus objetos, minha materialidade que é tudo que tenho agora. De que me vale ter espaço e objetos? Olho para todo o material da minha vida e vejo que nada compensa, nada supera, nada preenche, nada distrai, nada eleva, nada vale a completude que eu tinha quando era amada. O amor de outro me torna real. O amor de outro me torna útil. O amor de outro seria um motivo para voltar, para estar. Sem isso, observo a materialidade, interajo com ela, ocupo-me dela em mediocridade resignada, e tudo me parece apenas fútil, apenas claustrofóbico, apenas destrutivo, apenas desperdício, apenas solitário. Afinal, por que voltei? Quero a liberdade de andar por ruas em que não me espreite a sombra do amor perdido.

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