Ninguém normal e feliz precisa de
tantas coisas, de tanta materialidade. Volto a este quarto, meu lar de tantas
histórias doídas, incrustado de toda a materialidade de minha vida, e sinto um
desolamento ainda superior ao de antes de deixá-lo. Minha única possessão é
também minha ruína, meu ambiente inóspito, ainda mais aflitivo que minha mente.
Porque estive longe, encarcerada apenas pelos meus pensamentos. Minhas pernas frenéticas
me conduzindo aos encantos mais inéditos ou esquecidos, pernas livres, os olhos
fazendo reconhecimento de terreno, os sonhos construindo milhares de enredos
possíveis (e improváveis) no meu coração de insatisfeita, sempre insatisfeita, porém
disposta. Nem ao meu quarto pertenço. Penso nele ainda, e teço decepções
inúmeras, concluindo ter sido ele o mais próximo de todas as minhas
materialidades. Ele foi profundo conhecedor do meu espaço e dos meus objetos,
minha materialidade que é tudo que tenho agora. De que me vale ter espaço e
objetos? Olho para todo o material da minha vida e vejo que nada compensa, nada
supera, nada preenche, nada distrai, nada eleva, nada vale a completude que eu
tinha quando era amada. O amor de outro me torna real. O amor de outro me torna
útil. O amor de outro seria um motivo para voltar, para estar. Sem isso,
observo a materialidade, interajo com ela, ocupo-me dela em mediocridade
resignada, e tudo me parece apenas fútil, apenas claustrofóbico, apenas
destrutivo, apenas desperdício, apenas solitário. Afinal, por que voltei? Quero a
liberdade de andar por ruas em que não me espreite a sombra do amor perdido.
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