(O que foste para mim: não hão de ser. O que fui por viver-te: impronunciável. Para lembrar de ter amado. Não ter o rastro do que me fizeste. O que fora todo o meu viver é agora entre parênteses, um intervalo doloroso do viver, porque também a morte faz parte da vida. Porque todo êxtase tem correspondente agonia. E toda dor que me deixaste tem um pedaço de mentira. Aqui, irrestrita, desafio o peso do tempo. Meu vôo alto, oblíquo, é rasante nas feridas. O que sigo sendo, transformada por minuto, não esbarra nos dias teus, nas coisas tuas, nos atos tão bem unidos. Meu ato livre é inclusive poder pensar o que não se pode pensar. Meu ato livre é inclusive sentir a morte por não saber outra forma de fazer vida. Meu ato livre é a coragem de abrir o peito mesmo sabendo de toda a morte que bem me aguarda. Incorrigivelmente ciente, alerta, olhos bem abertos, memoriada, e inamovível. Sou pura vontade de fazer tudo de novo contigo.)
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