terça-feira, 17 de novembro de 2015

Inconsútil

O som de quem viesse a demover-me deste estado. Seria só o meu silêncio, ou o abafado da palavra que escapou soterrada. Flutuo deste som ao som nenhum, do murmúrio do nada a coisa alguma, e, de repente, sobreposta de fala, choro e riso, é que me vejo circunvolvida de inquietude: um motor que falha, uma miséria que me aborda, a conversa dos nós atados arranhando a garganta, a chegança do passado sorrateiro atrás da orelha desatenta, um presente distante que me faz desouvida a ponto de nem saber palavra, a campainha que não é a demoção, encanto quebrado, promessa nem feita, pujança apenas de saber-me soterrada de mim – que fazer dela? E o poder que têm os outros? Que a minha força não redime. E o chamado inesperado a colher-me absolvida? Os tempos de palavra e os tempos de nada conjugados e dosados: equação de sutis densidades. A medida da leveza e do peso, fala e ouvido, olvido e canto. E o amor exige – mais do que dá. E a racionalidade é superestimada. Há qualquer simplicidade respiratória que oscila do silêncio ao vibrante. Se me busco o que limite o silêncio é porque o sinta em todas as suas arestas a podar-me os cantos; falta ofuscar-me os erros; de repente, é rarefeito, sala vazia, olhar estéril, isolamento que indefine; a alma pede refúgio que não seja acreditar em si, se eu acreditasse no que acabei sendo; então, se mergulho em sons, elo do mundo, suposição de vida, contato, preenchimento, distração animada, é que me ensurdeço da falta de mim; de repente, é polimento secreto do mundo, e eu sei ser: de novo sinto a chama de viver em mim. O vínculo do mundo comigo é de via dupla, intersticiosa, antitética. Se crêem ter poder sobre mim: aviso que é só o poder do mundo. E se governa outra força é porque muito a quero ver fortalecer-me. E o poder que penso não ter é de o não admitirem: eu fui responsável, eu escolho, eu determino, eu posso – minha vida reverbera. Porque a mim pareceria aceitar, pacientar, libertar de todo. E não ser dona de nada. Para que me tenham sempre, recuada mas aberta de um todo que me arde nas fechaduras. Nada me demove. Desvinculada, suprema, sem controle. Silenciada. Nada peço, para que nada me recusem. Mas a falta? Costurando o som de quem viesse. Costurando o som do meu eu que não vai, não sabe ir. Ouve um chamado: e já está à porta. Sustenta um segundo o olhar atrás: e é como se não tivesse ido. Que espera? Saberei voltar? Saberei dos tempos ensurdecidos o tecido do silêncio? Estar sendo e ter sido? Saberei, demovida, da razão imperfeita que me guarda, para mais desfazer-me nos tempos partidos? Saberei precisar a medida do que vaga e inconstantemente me costura à vida? Quem me demove: me condena.

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